Coluna Vertical
O Museu e o IC 9
Sou um dos cronistas que, ao longo dos últimos quinze anos, tenho denunciando a política criminosa dos governos de Guterres e Sócrates, assente em endividamento público para sustentar um aparelho administrativo e produtivo totalmente ineficiente e inviável economicamente, assim como para financiar obras públicas faraónicas e de utilidade duvidosa que, em regra, só acarretam mais encargos.
A minha candidatura à Câmara Municipal de Abrantes pretendeu também ajudar a consciencializar os munícipes de Abrantes para este problema e dar um modesto contributo para resolvê-lo. As minhas reservas relativamente ao museu, por exemplo, não têm nada a ver com o valor do espólio, nem com o projecto de arquitectura, nem com a localização, se bem que considere que a população de Abrantes deve ter uma palavra a dizer sobre isso. As minhas reservas estão a montante desta discussão e assentam, apenas, na sustentabilidade económica de uma obra que vai consumir recursos que não temos para gerar ainda mais encargos (é, aliás, a própria presidente da câmara quem reconhece, já à partida, que o museu vai dar prejuízo) num momento de grande aperto financeiro com iminentes cortes nos salários, nas reformas e nas prestações sociais e um aumento brutal do desemprego.
E foi precisamente por se ter andado, durante os últimos quinze anos, a esbanjar dinheiro em projectos megalómanos que fazem as delícias dos autarcas, governantes e grandes construtoras, mas que arruínam o país, que agora se vai sacrificar o IC 9, este, sim, um investimento prioritário e essencial para o desenvolvimento económico do concelho de Abrantes e concelhos limítrofes.
Apesar de não ter a informação privilegiada dos socialistas, as pessoas do Tramagal devem recordar-se do que lhes disse na campanha eleitoral: que não contassem com o IC 9 para breve, ainda que a actual presidente da câmara e o ministro Jorge Lacão fizessem da sua construção iminente uma das suas bandeiras eleitorais. Por razões óbvias que só um cego não via ou um mentiroso não admitia.
A natureza do Mentiroso
Como disse o socialista Henrique Neto, no programa Prós e Contras, um dos problemas de Portugal é ter como primeiro-ministro um “vendedor de automóveis”. E se as qualidades de José Sócrates como “vendedor de automóveis” são excelentes (consegue fazer crer que um carro é óptimo, quando toda a gente vê que não anda), como primeiro-ministro não servem, até porque ninguém consegue resolver um problema sem admitir, primeiro, que o problema existe. Ou seja, como disse Henrique Neto e não se tem cansado de repetir Ferreira Leite, é preciso, antes de mais, falar verdade. Mas falar verdade, como toda a gente já percebeu, é pedir de mais a José Sócrates.
Atentemos, por exemplo, na aprovação da lei das Finanças Regionais que limitou o endividamento das regiões autónomas a 50 milhões de euros. Como se recordam, José Sócrates e Teixeira dos Santos chegaram a ameaçar demitir-se, caso a lei viesse a ser aprovada. Quem os ouvisse parecia que residia nestes 50 milhões a causa do desmoronamento das nossas contas públicas.
Para termos um pequena ideia do cinismo dos nossos governantes, basta dizer que 50 milhões corresponde apenas a um dia de endividamento público. Só a EP - Estradas de Portugal, SA, pagou, este ano, mais 500 milhões de euros do que constava nos concursos públicos de adjudicação das novas auto-estradas. E o recente acordo entre a ministra da Educação e os sindicatos dos professores implicou um aumento da despesa de mais 400 milhões de euros.
Mas como se isto não fosse já por si demolidor para a seriedade e credibilidade dos nossos governantes, a natureza resolveu agora desmascará-los completamente: quantos 50 milhões de euros vai custar a reconstrução da ilha da Madeira, após a tragédia?
Pois é, para quem apregoava o fim do mundo se fossem aprovados os 50 milhões para a Madeira...
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